Ela

O prazo de validade da minha raiva venceu no momento em que vi aquela cena na TV. Uma linda história de amor que me fez chorar muito e pensar no sentido da vida. O protagonista era uma inocente criança que, ao tentar superar um importante desafio, passa por um grave acidente e recebe todo o apoio que só sua mãe poderia dar. A pessoa que mais o ama e que vai protegê-lo para o resto de sua vida. Como é possível emocionar tanto em apenas trinta segundos? Os publicitários são pessoas iluminadas e um comercial de anti-séptico, mostrando um menino que cai da bicicleta e recebe os primeiros-socorros de sua zelosa mãe, mudou a minha vida.
Bem, pensando agora, com a cabeça mais fria, eu acho que a gravidez tem mexido um pouco comigo. O garoto nem ficou tão machucado, não precisou de pontos nem nada, só duas borrifadas do tal produto num minúsculo arranhão no joelho... Mas o importante é que tudo acabou bem, assim como deveria terminar o castigo do meu namorado. O pai do meu filho. O homem da minha vida, que tanto me ama, com quem eu vou passar o resto dos meus dias e... Santo Deus! Eu preciso parar de chorar a cada duas horas ou vou acabar desidratada.
"Concordo. Já tá na hora de acabar com essa briguinha. Mas não custa nada dar um gran finale pra punição que, convenhamos, ele mereceu". A minha irmã sempre foi tão apaziguadora... A primeira providência foi ligar para a mãe dele e dar a notícia da gravidez. Ela não pareceu tão entusiasmada quanto minha mãe, mas ficou encarregada de espalhar a novidade para a família do meu namorado antes que ele o faça antes de mim. De novo.
Sentei no sofá em frente àquelas bolachas reprodutoras de chiados e comecei a planejar a vingança. "Tenho que tocar no ponto fraco dele". E fez-se a luz. Foi cansativo trocar todos os discos de suas respectivas capas, mas eu posso dizer que foi também uma agradável e produtiva tarde de trabalho. Em determinado momento, pensei que pudesse estar cometendo um ato extremo de maldade, mas foram apenas dois segundos e meio de reflexão. Meu namorado passou algumas horas desfazendo a confusão, o que me deu tempo de ler vários contos eróticos para apagar de vez a mágoa causada naquela noite no jantar.
O resto da semana foi maravilhoso. Fomos ao cinema feito dois namoradinhos adolescentes, jantamos na casa da Solange ontem e lá surgiu a idéia de passarmos o fim de semana em Ilhabela. O Jair e a Solange já nos chamaram várias vezes para conhecer uma pousada, acho que de um primo do ex-chefe do Jair - ou ex-chefe do primo, não lembro direito - e nós finalmente resolvemos aceitar o convite. Eu tenho algumas recordações de Ilhabela, onde passei uma semana durante a minha infância. Ou melhor, duas recordações: uma boa e outra ruim. Uma coruja entrou pela janela da sala enquanto assistíamos à novela, deixando em pânico as mulheres da família. E trezentas dúzias de borrachudos nos atacavam todo final de tarde, o que faz da primeira a boa recordação da viagem.

Marco Aurélio Gois dos Santos

Às vezes parece que o Diabo fica entediado lá no inferno e vem até a Terra para se divertir às nossas custas. Foi o que aconteceu há três dias, quando resolvemos reunir a família da minha namorada para contar sobre a gravidez. O resultado da confusão toda: um cunhado de tapa-olho e uma mulher grávida me tratando da forma mais fria possível durante dois dias. Não tive culpa do que aconteceu com o olho do Edu, foi só mais uma conseqüência da falta de jeito do meu sogro. Quanto a essa mulher que anda pelo apartamento sem falar comigo, bem, acho que eu mereço. Não que a coisa tenha acontecido da forma como ela pensa que aconteceu. O negócio é que ela se levantou para ir ao banheiro e eu fiquei distribuindo as taças. Minha sogra perguntou a que se devia toda aquela cerimônia. Eu falei que não era nada, que assim que ela voltasse do banheiro contaria para todos. E foi aí que o Diabo entrou na história:
– E depois deve voltar pro banheiro de novo. Sabe como é mulher grávida.
Falei sem perceber. Sabe quando você acha que só pensou uma coisa, olha em volta e descobre que na verdade fez um comentário em voz alta? Pois então, foi o que aconteceu. Fez-se o silêncio na sala. Quebrado pelo meu sogro:
– ELA TÁ GRÁVIDA???
Lá do banheiro minha namorada pensou que fosse a minha voz anunciando a gravidez. Como se eu fosse mesmo capaz de fazer algo assim, gritar para todo mundo a notícia que deveria ser divulgada por ela. Enfim, estava formada a confusão. Ela veio do banheiro feito um míssil, o olhar de ódio cravado em mim. Eu – que tentava me desvencilhar de minha sogra, então dependurada no meu pescoço – corri para abraçar minha namorada. Eu sabia que ia apanhar, no mínimo. Foi aí que Satanás, talvez arrependido do que acabara de fazer comigo, resolveu interferir novamente: meu sogro foi estourar o champanhe, a rolha voou e foi bater no olho do Edu. As atenções se desviaram para ele. Até eu fingi alguma preocupação com o babaca do meu cunhado. Tudo para escapar da ira de uma mulher grávida. No entanto, quando os pais dela saíam para levar o filho ao hospital, ela deu um jeito de rosnar para mim:
– Você me paga por essa...
E aí começou o inferno. É horrível quando ela resolve não falar comigo, porque ela não fala mesmo. Nada de gestos, acenos, bilhetes, nada! É como se eu não existisse. Nas primeiras horas eu tentei pedir desculpas, contar minha versão da história, mas não adiantou. Então entrei no jogo. Agüentei durante dois dias, até ontem. Hoje de manhã eu saí para trabalhar já disposto a me reconciliar com ela de qualquer forma quando voltasse. Fui almoçar com o Jair, para ver se ele me dava alguma idéia de como fazê-lo.
– É, rapaz... – Ele disse – Situaçãozinha complicada, essa sua. Mas também, o que é que você tem na cabeça?
– O Diabo...
– Hein?
– Esquece, esquece! Eu sei lá por que fiz aquilo! O negócio é que quero desfazer e não sei como. Você vai me ajudar ou vai ficar aí me criticando?
– Quero te ajudar, você sabe. Mas é difícil, pô! Ela deve estar uma fera, não?
– Você não tem idéia.
– Hum. Que tal umas flores?
– Aí é que ela me expulsa de casa. Você acha que alguma mulher ainda cai nessa?
– É, é verdade... Esse negócio de fazer burrada e depois tentar agradar nunca dá certo.
– Pois é. E então?
– Eu sei lá!
– Você não sabe?
– Não.
– Grande amigo você é...
– OLHA A CAGADA QUE VOCÊ FEZ!
– Humpf.
Voltei do almoço ainda sem idéia do que fazer. No fim da tarde, saí do escritório desanimado com a perspectiva de encontrar uma mulher hostil. Cheguei em casa e tentei puxar assunto:
– Oi.
– ...
– Como você está?
– ...
– Sentiu enjôos hoje?
– ...
– Não vai falar comigo?
– ...
– Então tá. Vou ali ouvir uns discos, espero que você não se importe.
– ...
– Beleza.
Fui até a prateleira e peguei o LP que havia deixado separado para ouvir. The Piper At The Gates Of Dawn, primeiro disco do Pink Floyd. Puxei o bolachão de dentro da capa, botei no prato, posicionei a agulha e me recostei na poltrona. Só que, quando o disco começou a tocar, em vez de Astronomy Domine eu ouvi Sá Marina, do Wilson Simonal. Levantei-me sem entender nada. Olhei o selo do LP. Alegria, Alegria vol. 2. "Ué...", pensei. Procurei o disco do Simonal no meio da minha coleção. São mais de 500 LPs mais ou menos organizados por estilo e por nome do artista. Acontece que estavam todos fora de ordem. Demorou um pouco, mas acabei percebendo o que acontecia. Olhei para minha namorada e ela estava com um meio-sorriso no rosto.
– Você trocou a capa de uns LPs, aqui? É isso?
Ela fez que não com a cabeça. Bom, já era uma forma de comunicação.
– Você trocou a capa de TODOS?
Acenou que sim.
– E é essa sua vingança? Pffff, que coisa besta. Arrumo isso rapidinho.
– Boa sorte – ela disse. – eu vou dormir.
Ainda eram oito da noite, mas nem quis discutir. Ela tinha falado comigo, já era alguma coisa. Entreguei-me ao trabalho de colocar meus LPs de volta nas capas correspondentes e reorganizar tudo. Dentro da capa do Alegria, Alegria vol. 2 estava Samba Esquema Novo, do Jorge Ben. No lugar do disco do Jorge Ben, estava Let It Bleed, dos Rolling Stones. Uma zona. O obsessivo-compulsivo que há em mim queria gritar e sair correndo. Contive-o aos tapas, porém, e prossegui com o trabalho. Fui terminar já passava da uma da manhã. A última capa era de Krig-Ha Bandolo, do Raul Seixas. Coloquei o disco correto dentro dela e enfim encontrei o The Piper At The Gates Of Dawn. Junto com ele, um bilhete dela:
"Se ainda estiver inteiro depois desse trabalho todo, encontre-me no quarto. Precisamos fazer as pazes."

Fui até o quarto e a encontrei acordada e muito bem disposta. Foi uma noite e tanto. Minha namorada é bem amalucada, às vezes, mas sabe ser original quando quer.

Ela

Eu ensaiei aquele momento na frente do espelho durante três dias. Preparei discurso, mudei discurso, desisti de discurso. Fiz um belíssimo arranjo de flores para enfeitar a mesa do almoço. Gastei uma fortuna com comida pronta, vinhos e champanhe. Enfim, tudo preparado para contar a grande novidade. Seria o meu momento! O MEU momento!!
Na noite anterior ao almoço eu sonhei que era uma famosa estrela de cinema. Na verdade eu era a Rita Cadillac gravando Aluga-se Moças, mas no sonho eu tinha até camarim exclusivo e... enfim, eu era uma estrela. “Um presságio”, pensei.
Depois da sobremesa, as taças de campanhe seriam distribuídas e, diante da expressão de expectativa dos convidados, eu daria a notícia. Quando eu finalmente batesse no copo com a colherzinha (três vezes, como nos filmes) e fizesse o grande anúncio, todos iriam me abraçar e chorar e dizer que eu seria a melhor mãe do mundo.
Na hora certa, chamei meu namorado na cozinha. “Você distribui as taças enquanto eu vou fazer xixi”. “Pode deixar!”
Sentei no vaso sanitário e relaxei. Eu estava a poucos segundos da glória. Da sala, veio a frase que soou como um alarme de incêndio.
“Pra quê tudo isso?”, era a ansiedade da minha mãe detonando a bomba.
“É porque... porque... ELA TÁ GRÁVIDA!!!”
............
Meu mundo caiu.
Quando abri a porta do banheiro, a cena: meu pai chacoalhando a garrafa de champanhe e minha mãe agarrada ao pescoço do meu namorado, chorando. Quando me viu entrando na sala, ela veio em minha direção para me abraçar.
Nesse momento meu pai conseguiu estourar a champanhe. E como numa comédia dos Trapalhões, a rolha soltou-se da garrafa para ir direto para o olho do meu irmão.
“Tô cego!”. Minha mãe pegou a bolsa e declarou: “Vamos te levar pro hospital, meu filho, calma...”
Diante daquela confusão eu não sabia se socorria meu irmão, se chorava ou se dava uma surra no meu namorado. Deixei a primeira tarefa para os meus pais, que já se preparavam para sair. Chorar iria gastar as energias que eu decidi poupar para executar a minha vingança. O meu namorado me paga! Ah, ele me PAGA!

Marco Aurélio Gois dos Santos

Panettone com maionese. PANETTONE COM MAIONESE! Eu mereço. E ainda se fosse só isso... O problema maior é que todas as mulheres parecem tirar do DNA um pacotão de conselhos assim que uma delas engravida. Como explicar, por exemplo, que a Marininha – que nunca sequer sonhou em ter filhos; nem irmãos tem – tenha se tornado de uma hora para outra a maior conselheira de gestação para minha namorada? E é cada conselho... As duas devoram as páginas de um livro, O Bebê na Era de Aquário. A Marininha tem verdadeira devoção pela autora, uma americana oxigenada de olhar aguado e sorriso enjoativo. E minha namorada embarcou nessa. Ciência? Ginecologia? Obstetrícia? Pré-Natal, Ultrassom? Para que tudo isso, se temos os astros para nos guiarem, não é mesmo? A depender da Marininha, saberemos o sexo do bebê de acordo com a fase da lua e o parto será feito por uma índia velha e sombria balançando um chocalho de cascavel. Já fico me imaginando desesperado na hora do nascimento, berrando "Toalhas! Água quente! MAIS ÁGUA QUENTE!" pela casa. Daqui a pouco vão dizer que o bebê é obra da cegonha, e não minha.
Agora tinha outra preocupação, no entanto: panettone com maionese. E onde é que eu ia encontrar panettone dois meses depois do Natal, meu Deus??? Sei que rodei a cidade e acabei encontrando uma bombonière que tinha um estoque imenso de panettones encalhados. E é claro que a loja ficava a um quarteirão do escritório onde trabalho. Que graça teria a vida sem essas ironias, não é mesmo? Lá fui eu para minha casa, triunfante, seis panettones (leve três, pague dois – eu não podia perder essa) e um frasco de maionese na mão. Sentia-me como Ulisses voltando para casa e para os braços de sua amada. Só que minha Penélope não parecia muito disposta a colaborar:
– Hum – disse ela, depois de passar uma enorme quantidade de maionese numa fatia de panettone. – Não é tão bom quanto eu imaginei.
– Como assim, não é tão bom? O que você imaginou?
– Ah, sei lá. Achei que tivesse um gosto mais assim de... De... Ah, sei lá. Achei que fosse mais gostoso. Feito quindim com requeijão.
– Quindim com requeijão??? Isso é bom?
– Não sei. Deve ser, né?
– Ai meu Deus...
– Hum... Quindim com requeijão... Eu preciso comer quindim com requeijão.
– Não precisa nada.
– PRECISO! Senão nosso bebê vai nascer com cara de quindim com requeijão.
– Aí a gente manda ele pro circo.
– Rá, rá... Bobo. Vem cá.
– Pra quê...?
– Vem cá, oras.
– Hum...
– Fala com ele.
– Hein?
– Fala com o bebê.
– Como é? Falar com o bebê?
– É. A Marininha disse que é importante a gente falar com ele. Faz bem para o desenvolvimento da criança.
– Pode ser, menina. Mas não agora. Você está no segundo mês de gestação. Ele ainda não pode ouvir, é só um girino.
– Girino????
– É... – alerta vermelho.
– Você está dizendo que o MEU bebê é um GIRINO?
– Bom, não é bem um girino. Assim, não propriamente dito. Ele só se PARECE com um girino, mas não é um girino. Não se preocupe, ele não vai virar um sapo. Hehe.
– SEU INSENSÍVEL! Você não se importa, você nem quer saber, fica falando que o meu bebê é um... um... um GIRIIIIIIIII...
E desatou a chorar. Tentei consolá-la como pude, o que não foi fácil. Ela dizia que eu não a amava nem ao bebê. Que ia abandoná-los. Meu Deus! E eu que pensava que já conhecia todas as variações de humor possíveis. Bobagem! Grávida ela está ficando mais instável ainda.
E amanhã a família dela vem aqui para o almoço em que comunicaremos a gravidez. Sei não, sei não. Maus pressentimentos.